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Dossier Formation des instituteurs pour une autre éducation infantile

Acolher: um convite para acessar o coração, saindo da tensão e encontrando um estado de atenção aos afetos

, por VIEIRA Nuelna

A Acolhida é um momento inicial de abertura dos nossos encontros. Um momento dedicado a conectarmos sensações, imagens, afetos e ideias. Acolhermos uns aos outros, iniciando um contato, uma possibilidade de escuta, expressões e experiências que tinham como eixo o corpo na relação consigo, com outro e com a exterioridade. Todas as manhãs, começávamos as aulas com a proposta de deixarmos as bolsas, o que significava liberarmos os pesos, e sairmos em busca do que pertence a cada um: respiração, movimento, articulações, circulação.

Solicitamos às alunas-professoras que trouxessem sempre uma canga, água, e às vezes frutas para serem compartilhadas, além de roupas confortáveis que favorecessem ao movimento. Parece simples, mas é complexo. O que fazer com uma canga e roupas confortáveis em um curso de especialização? O pedido não correspondia ao imaginário de muitas alunas-professoras sobre o que seria um curso de pós-graduação.

Destacamos esse ponto como reflexão do trabalho pedagógico a ser desenvolvido: não basta propor, precisamos estar abertos para os efeitos da proposta. Aonde esse pedido as levava? O que causava? Essa solicitação endereçou a quem? Pois, do mesmo modo que em algumas pessoas causou estranheza, para outras, ainda que continuasse a ser estranho, lhes inspirou imaginar coisas incríveis que seriam feitas com o uso da canga: como ir à praia, massagem, danças e muito mais: uma conexão com o próprio corpo. Esse estranhamento expôs um desconhecimento, uma desconexão entre os elementos: canga e estudos. Canga inspira lazer, Canga inspira praia, descontração...

Os pensamentos, sensações e ações referentes a estar em/fazer um curso de pós-graduação, por outro lado, inspiram esforço, assistir a uma aula por um tempo significativo sem sair de sala, atenção. Conjugar esses dois elementos em uma mesma proposta foi novidade para o grupo. Gallo (2003) nos ajuda a refletir sobre estas questões quando afirma que:

Devemos afinal, como homens de conhecimento, ser gratos a tais resolutas inversões das perspectivas e valorações, com que o espírito, de modo aparentemente sacrílego e inútil, enfureceu-se consigo mesmo por tanto tempo: ver assim diferente, querer ver assim diferente, é uma grande disciplina e preparação do intelecto para a sua futura ‘objetividade’ – a qual não é entendida como ‘observação desinteressada’ (um absurdo sem sentido), mas como a faculdade de ter seu pró e seu contra sob controle e deles poder dispor: de modo a saber utilizar em prol do conhecimento a diversidade de perspectivas e interpretações afetivas [...] Existe apenas uma visão perspectiva, apenas um ‘conhecer’ perspectivo; e quanto mais afetos permitirmos falar sobre uma coisa, quanto mais olhos, diferentes olhos, soubermos utilizar para essa coisa, tanto mais completo será nosso ‘conceito’, nossa ‘objetividade’. Mas eliminar a vontade inteiramente, suspender os afetos todos sem exceção, supondo que o conseguíssemos: como? – não seria castrar o intelecto?... (GALLO, 2003, p.31-32)

Assim, organizar um material específico e compreendido como diferente, no sentido de privilegiar/considerar o corpo como elemento que se traz à sala de aula, num curso de pós-graduação, produziu diferentes afetos em cada um e no grupo. Eis aqui mais um ponto primordial da proposta: produzir afetos nas alunas-professoras, proporcionar uma multiplicidade de afecções e com elas dialogarmos, acolhendo-as e entendendo que, a partir dos afetos, compartilhamos nossas perspectivas e podemos ampliá-las. Assim, muitas alunas-professoras, aceitando aquele gesto mínimo, mas que potencializava a nossa escolha: convidar a trazer um elemento que simbolizava a quebra de um paradigma ao que diz respeito à relação corpo-escola proposta, traziam suas cangas, e juntas começávamos nossas manhãs saindo da sala na maioria das vezes e buscando uma área externa. Podia ser: a Praia Vermelha, localizada a 5 minutos da UNIRIO, a belíssima pista Claudio Coutinho (também bem próxima à Universidade), e outros espaços próprios desta como o pátio frontal, um cantinho com mesas e árvores, e os arredores. Saíamos para respirar, caminhar, olhar, sentir, perceber e trocar. Saíamos para viver, experienciar o corpo e compartilhar o vivido. A canga era nosso instrumento para diferentes situações, ela servia para sentarmos no chão, na areia. Funcionava como um objeto mediador, favorecendo a relação, o contato para trabalharmos com duplas, trios e até com todo o grupo.

Elementos e gestos mínimos carregados de sentido sobre a nossa proposta de criar trilhas diferentes ao que diz respeito à prática de formação de professores: Canga e a ação de caminhar, por exemplo, foram materializando lugares carregados de afetos. Tínhamos mais outro elemento: a água. Os gregos antigos falavam que água e massagem são caminhos a percorrer para una vida saudável, então, beber água era vivenciado como um convite permanente para hidratar e lubrificar o corpo, estimulando o seu consumo e favorecendo uma irrigação das articulações em geral.

As frutas foram outro elemento utilizado como mediador das relações, eram um meio de cuidar de si, cuidando do grupo. Ao trazermos uma fruta para compartilhar, naturalmente cada fruta trazia em si uma história: a predileta, as dificuldades em executar tal pedido no meio de um dia cheio de tarefas, os desejos que o pedido suscitou e muito mais. O simples ganhava complexidade, apresentava-se carregado de valores, de sentidos. Estávamos interessadas em conhecer, em explorar esses sentidos, esses valores que as frutas, a canga, o estudo, as propostas suscitavam em cada um. Pois entendemos que nesse instante nos aproximamos do outro, do que há de mais íntimo e próprio – as singularidades. Também entendemos que o diálogo, as trocas, a convivência entre essas singularidades produzem um grupo, um coletivo que garante espaços e tempos para as diferenças, para a construção de um professor militante, como nos diz Gallo (2003):

O professor militante nunca é uma ação isolada. Então, o professor militante seria aquele que, vivendo as misérias dos alunos ou as misérias da situação social da qual ele participa, procuraria, coletivamente, ser um vetor de libertação, de possibilidades de libertação. [...] o professor militante é aquele que age coletivamente, para tocar a cada um dos indivíduos (p.74).

Acolhida foi um modo de criarmos espaço-tempo para experienciarmos o corpo, um coletivo. Mas de que corpo falamos? Na prática o primeiro corpo que se apresentou rapidamente nas falas e expectativas do grupo foi o corpo físico com suas formas, pesos, volumes, articulações e densidades. Algumas falas recorrentes em nossas manhãs foram:

Andar, caminhar... Nossa, há quanto tempo não faço isso! Estou fora de forma. Gente! Dói tudo! – diz uma aluna ao alongar o corpo. Eu tenho problema de coluna e só posso andar de salto. Nem pensar pisar no chão.

A proposta de mexer o corpo implicava sairmos de sala de aula, explorando os espaços externos da Universidade. Assim, surgia mais uma noção de corpo, um corpo conectado à natureza. Olhar, sentir os cheiros, perceber as nuances dos verdes das árvores, tocar e estabelecer um encontro possível entre cada um e o ambiente ao redor. E as observações das alunas continuavam:

Caminhar! Para que isso? Ah, tá calor demais. Nossa, nunca estive aqui, não conhecia essa pista. É Linda! Nossa, como seria bom vir com as crianças! Esse cheiro me lembrou a minha infância, onde eu morava, tinha tantas árvores... Saí de casa cedinho: 6:30 já estava no ônibus. Poder respirar, sentir meu corpo, me sentir sendo cuidada é fundamental.

Caminhar, respirar, mexer o corpo, circular pelo bairro, sentir os cheiros... Todas essas ações expressavam uma relação íntima entre memórias afetivas, sensações presentes e razão, confirmando o que já se estabelece nas reflexões de teóricos preocupados com os gestos de reconexão entre as distintas funções do nosso ser físico:

Os sentimentos parecem depender de um delicado sistema com múltiplos componentes que é indissociável da regressão biológica; e a razão parece, na verdade, depender de sistemas cerebrais específicos, alguns dos quais processam sentimentos. Assim, pode existir um elo de ligação, em termos anatômicos e funcionais, entre razão e sentimento e entre esses e o corpo (DAMÁSIO, 2004, p. 276).

Acolher o grupo pelas manhãs, após alguns encontros, começava a ir além das noções físicas e ambientais. Cada um, a partir das experiências, produzia sentidos que ajudavam a ligar corpo com ideias, afetos, lembranças, vontades, resignificando o lugar do corpo em seus cotidianos cheios de afazeres. O sentido que esses encontros produziam em cada um ampliou as possibilidades de relação com o próprio corpo e tecia elos entre corpo, sentimentos e razão. Elos que se constituíam na experiência e não como verdade absoluta a ser seguida e legitimada por todos. O princípio desse momento de acolhida era: ao mexer o corpo, provocar deslocamentos, efeitos surgiriam. Andar, olhar, alongar, perceber, sentir produziria algumas imagens, ideias, sentimentos. Estávamos interessadas nos efeitos, no que o grupo vivia. Uma aposta no processo do grupo.

O corpo ganhou outra dimensão: de físico e natural, tornou-se um corpo sensível, superando em alguma proporção a separação entre razão e sentimento: a razão cartesiana com a vivência dos afetos mais íntima ao grupo, o corpo tornava-se aberto aos novos modos de conhecer. Em algum lugar, de alguma forma, cada um pode viver e reconhecer um saber como efeito dos processos sensíveis, como mostra o relato da fala de uma aluna sobre um encontro na Praia Vermelha:


Minha palavra é resistência. Como resisto deixar a bolsa, os pesos e caminhar até a praia. Mas, hoje, depois desses encontros, ainda sinto essa resistência e resisto a ela. Pois já sei o quanto me sinto bem, melhor, quando consigo chegar e respirar, olhar esse visual e sentir esse cheiro de maresia.


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O grupo durante as práticas na Praia Vermelha. Imagem do arquivo.

Assim, chegávamos ao corpo sensível. Havia uma apoximação das sensações, sentimentos e ações. As alunas-professoras começavam a falar de si, do que sentiam e queriam. Elas conseguiam se sentir implicadas e pertencentes ao movimento de acolhermos umas às outras com nossas diferenças e possibilidades. Aproximávamos da reflexão que a dançarina e coreógrafa Angel Vianna faz sobre o corpo:

O corpo é um meio de expressão, não um meio de atuar automático. O trabalho corporal desenvolve a sensibilidade, a imaginação, a criatividade e a comunicação. (...) Nossa história se inscreve em nosso corpo e os movimentos são reflexos de emoções e sentimentos (VIANNA, 1998, p.11).

As alunas-professoras ganhavam corpo, apropriando-se de si nas relações com a exterioridade – pessoas, conceitos, ambientes, e tudo mais que nos rodeava. Algumas transformações surgiam lentamente, como: chegar mais cedo ao curso para tomar banho na praia; trazer a família para conhecer esses novos espaços da cidade; emagrecer; e uma permanente sensação de ser olhada, cuidada, que alterava por completo a vinculação de cada aluna-professora com o curso, com o processo de estudo e aprimoramento da prática pedagógica.

Foi emocionante vê-las questionando e desejando ter uma prática em sala de aula próxima aos seus conceitos, valores, enfim, acreditando em outros modos de aprender, por estarem vivendo um processo que as potencializava, estimulando querer saber mais e mais.

No entrelaçamento desse espaço-tempo de olhar, caminhar, acolhermos uns aos outros, a ludicidade sempre esteve presente, temperando e tornando leves momentos de tensão. Pois a estranheza e a novidade, por mais interessantes que possam ser, causam tensões, além das tensões que carregamos diariamente em nossos ombros, cabeça, coluna, peito, enfim, no nosso corpo. Dessa forma, aproximar-se do corpo sensível é uma proposta “de acordar o corpo. O momento em que podemos sair de um estado de tensão para um estado de atenção com o corpo” (RESENDE, 2008, p.567).

O momento da acolhida dedicou-se a cuidar do grupo, assegurando o conhecimento do próprio corpo e tecendo os fios que compunham cada aluna-professora.
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Referências :

  • DAMÁSIO, António R. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
  • GALLO, Silvio. Deleuze & Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.
  • RESENDE, Catarina. O que pode um corpo! O método Angel Vianna de conscientização do movimento como um instrumento terapêutico. Physis Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, n. 18. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/physis/v18n3/v18n3a11.pdf.

Contexto de Produção: Texto produzido como registro no contexto do Curso de Especialização em Docência na Educação Infantil da UNIRIO.

Produtor-contato: cei.unirio@gmail.com

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