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Dossier Formation des instituteurs pour une autre éducation infantile

Arte, corpo e natureza na formação estética de educadoras/es da infância

, por GUEDES Adrianne Ogêda, VIEIRA Nuelna

De que forma professores em exercício da escola básica têm convivido com – e usufruído de – experiências no campo das artes? Quando podem, também eles, experimentam o corpo na dança, na expressão plástica, nas artes cênicas? Em quais tempos e espaços têm a oportunidade de mergulhar na literatura, apreciar ritmos variados, colocar as mãos na massa e os pés no chão? Escutar seu corpo, sua respiração, perceber músculos, pontos de apoio. Olhar nos olhos de seus pares? Quando têm apreciado belas produções culturais: teatro, dança, exposições de artes? Com essas inquietações iniciais demos vida ao curso de extensão “Educação Infantil: arte, corpo e natureza”.

O que é específico da docência em Educação Infantil? De que forma, considerando que estamos lidando com professores em exercício, contribuir efetivamente para a prática do professor da Educação Infantil? Quais os caminhos metodológicos que possibilitam uma efetiva articulação entre teoria e prática? Essas são perguntas que têm nos acompanhado ao longo da elaboração e da implementação dos Cursos de Especialização em Educação Infantil e de Extensão “Educação Infantil: arte, corpo e natureza”. Vindas do campo da Expressão Corporal, Psicomotricidade, Psicologia, Pedagogia e Educação Infantil, nossas experiências como professoras de Educação Infantil, que somos/fomos e em espaços de formação, nos indicavam alguns caminhos. Temos como pressupostos concepções que compreendem que o ensinar e o aprender no campo da formação docente precisam mobilizar o interesse e incluir as questões que afetam os docentes. Questões estas que, nascidas da lida cotidiana com crianças e adultos em instituições educativas, inquietam e pedem diálogo e troca.

Compreendemos também que aprender é experiência de “corpo inteiro”, que envolve o campo sensível do professor. Corpo, sensações, pensamentos, ideias... que, provocados por vivências variadas, têm espaço e tempo para emergirem no grupo e com o grupo, pois, como afirma Duarte Jr. (2012):

Considerando-se que a experiência estética ocorre diuturnamente conosco, quando nossos sentidos se demoram na descoberta das coisas em volta, ela provoca justamente esse espanto e esse maravilhar-se com o mundo. É disso que qualquer projeto educacional deveria sempre partir. É sobre esses insights esplendorosos que se constroem as reflexões, as teorias, a filosofia e a ciência. E também a religiosidade e a arte surgem daí (p. 3).

Tendo essas questões como norteadoras, optamos por oferecer um curso de extensão voltada para a formação em artes. O objetivo indicado para o curso era o de qualificar profissionais, dizendo respeito aos princípios teórico-práticos do campo das Artes, promovendo relações com as experiências cotidianas na Educação Infantil. A ementa proposta destaca os seguintes aspectos: “Criação e imaginação na infância. Educação estética, infâncias e linguagens artístico-culturais. A arte na Educação infantil. Relação e interação das crianças com diversificadas manifestações de música, artes visuais, dança e teatro.”

Caminhos trilhados pelo Curso “Educação Infantil: arte, corpo e natureza”

Convidamos, para ministrar as aulas do curso, professores do campo das artes, alguns da própria UNIRIO e outros de outros locais. Muitos deles atuando não apenas em espaços de formação, mas também em produções artísticas. Reunimo-nos para planejamento e para discutir a metodologia, propondo que a ênfase do curso recaísse na promoção de experiências nos diferentes campos: artes visuais, expressão corporal, dança, teatro, literatura e cinema. Além disso, tínhamos como perspectiva incluir na programação mensal uma saída externa para, juntos, assistirmos a exposições, espetáculos teatrais, de dança. Muitos destes ligados aos professores convidados, pois, entre eles, bailarinos e atores estavam em cartaz com suas produções. Os registros das experiências e o espaço para a reflexão ficariam garantidos pela produção de um álbum individual por parte de cada aluno-professor. Nesse álbum, utilizando diferentes recursos, o desafio era ir documentando, refletindo, registrando o vivido. O álbum seria depois socializado entre nós.

Quanto à metodologia, o curso envolveu atividades coletivas e individuais, de modo a promover o aprofundamento teórico-metodológico e estimular processos de reflexão sobre as práticas no cotidiano de trabalho em creches e pré-escolas, no que tange às artes plásticas, visuais, cênicas, à literatura, cinema e artes corporais. O curso ofereceu um conjunto de vivências, repertórios e conhecimentos que possibilitaram a construção de olhares e propostas de trabalho com as crianças. Mantivemos – o que ainda fazemos – um grupo de troca em uma rede social, onde os professores postavam as atividades vividas com suas crianças, inspiradas e provocadas pelo trabalho no grupo, além de divulgarmos eventos ligados à Educação Infantil e arte.
Privilegiamos o trabalho em pequenos grupos.

Assim organizamos as aulas para terem sempre 2 ou 3 professores trabalhando com o mesmo tema (consciência corporal, dança etc.), o que possibilitava subdividir a turma em 2 ou 3 subgrupos. Dessa forma, apostávamos em uma estrutura que favorecesse um ambiente de relação e trocas entre aluno/professores, alunos/espaços, alunos/movimentos. O espaço, em especial, exigiu da equipe – coordenação e professores – um investimento significativo, pois uma aula que se propõe ao movimento, à dança, à respiração necessita de espaços físicos adequados com salas limpas e que possibilitem a movimentação. Encontrar na universidade salas limpas, sem cadeiras (ou retirá-las), para que possamos sentar, deitar, rolar, colocar os pés no chão, foi tarefa árdua que envolveu mobilizar a Instituição mais amplamente. Precisávamos da equipe da limpeza ativamente aos sábados. Solicitamos junto aos professores de outros departamentos, como o de teatro, espaços mais apropriados e que pertenciam à estrutura deles (tendo que conciliar diferentes calendários, fazendo-os dialogar e encontrar brechas para todas as aulas).

Esse processo de viabilizar a proposta, envolvendo várias pessoas e campos dos saberes, deu trabalho e, ao mesmo tempo, foi riquíssimo, promovendo muitas trocas, conhecimentos e uma legitimização do quanto as instituições de ensino necessitam de uma reformulação que as convidem mais e mais a uma integração dos saberes e práticas. Vale destacar que a própria questão dos espaços físicos nas instituições de formação de professores precisa ser revista. Salas repletas de cadeiras e quadro, esse é o panorama mais geral. Como experimentar tintas, movimentos, e tantas outras possibilidades ricas para o licenciando em Pedagogia?

Buscamos também garantir sempre os espaços de trocas. Em nossas vivências, tornou-se vital abrir um momento nos encontros para compartilhar impressões e experiências. Parar e registrar o vivido no álbum com diferentes linguagens (palavras, textos, desenhos, imagens, entre outras) era uma forma de cada um “perceber” as impressões e marcas da vivência em si.

Quais afetos, lembranças, pensamentos, ideias produziram? E ao compartilhar com os outros, “perceber” a multiplicidade de efeitos vividos na experiência e elaborar o próprio vivido (digerindo as sensações e construindo ideias). Esse era um momento especial no grupo – as pessoas, cada uma a seu modo, expressavam sua intimidade: ideias, vontades, imagens, palavras, sonhos... E aos poucos nesse processo, o grupo se transformava, vivia um processo de aprendizagem que alterava o corpo, as imagens que cada um tinha de si mesmo, integrando um pouco mais o que se sente com o que se vive.

Portanto, as aulas convidavam à experimentação. Muitos são os estudos do campo da formação docente (DUARTE JR. 2004; LOPONTE, 2011; KRAMER, 2011) que corroboram a concepção que alia experiência à formação, afirmando que, para que o professor possa efetivamente incorporar em sua prática ações que envolvam o estímulo na criatividade, no fomento à imaginação das crianças, oferecendo experiências que envolvam a corporeidade, a produção artística e a formação cultural e estética, é mister que ele próprio experimente em si mesmo essas possibilidades. Assim, mas do que um conhecimento externo, adquirido pela razão, esse docente terá transformado elementos vivos em seu repertório, a partir do que as vivências mobilizaram nele.

O curso teve a duração de quatro meses e meio. Iniciamos com um mergulho nas Artes Visuais, com o objetivo de estudar – e refletir sobre – os conceitos e fundamentos estéticos da arte e sobre Imaginação e criação na infância. Esses temas foram trabalhados tendo sempre como perspectiva a articulação do estudo teórico dos mesmos e dos desdobramentos para a prática com a Educação Infantil. As alunas-professoras foram convidadas a experimentar materiais diversos a partir das propostas das professoras. Foram também a uma exposição no Museu de Belas Artes, munidas de uma proposta de apreciação indicada pelas professoras.

No segundo mês, trabalhamos a Consciência Corporal e o Contato Improvisação. Os professores convidados tinham, entre outras, uma formação de base semelhante: o trabalho da bailarina e educadora Angel Vianna, referência nesse campo. Seu trabalho enfatiza a consciência pelo movimento e tem formado gerações de bailarinos, professores, terapeutas e outros profissionais. Aqui a proposta era ampliar o conhecimento do próprio corpo e de suas possibilidades de criação no contato com o outro. Em foco, a capacidade de comunicação e expressão com gestos, percepções, experimentações do corpo no espaço, tendo a musicalidade e o contato como norteadores.

No terceiro mês, foi a vez da dança, do ritmo e da criação coreográfica. Os encontros visaram à experimentação do corpo que dança. Elementos como planos do espaço, ritmo, linhas do corpo, espaço, tempo, dobraduras do corpo, impulso, fluxo foram trabalhados. Ritmos e passos das danças populares foram vivenciados. A perspectiva era ampliar o repertório de possibilidades de movimento do corpo, tornando-o disponível para o jogo da dança, a brincadeira com os movimentos, a liberdade de criar e se expressar via ritmo e dança. O desenvolvimento da motricidade da criança foi explorado e experimentado pelo grupo, que explorou movimentos como o engatinhar, rolar, equilibrando-se em apoios diversos e relacionando tais experiências com o movimento infantil nos primeiros anos.

No quarto mês, abordamos o tema da Cultura e da infância focalizando a brincadeira da criança e as múltiplas linguagens expressivas como possibilidades de conhecer e expressar o mundo. Foi oportunidade de discussão das práticas e sentidos possíveis do trabalho com as diferentes linguagens expressivas na Educação Infantil. Trabalhamos também as relações entre as crianças e a cultura, compreendendo os museus como espaços não formais de educação, onde o sujeito acessa parte da cultura da humanidade.

O curso finalizou com mais dois encontros voltados para o teatro, a literatura e o cinema. Nesses encontros o grupo experimentou oficinas de criação dramática, discutiu a concepção de leitura literária na formação do leitor, travou contato com vasto acervo de literatura para crianças e experimentou a produção de pequenos curtas a partir de técnicas simples e acessíveis de cinema.


Reflexos, reflexões de como os participantes foram sendo afetados

Nos relatos e nas trocas que vivíamos a cada semana, observávamos mudanças de hábitos, pessoas resgatando atividades adormecidas, ampliação dos conhecimentos e das ações (ir ao museu, fazer piqueniques, dançar, pintar o corpo, apreciar a natureza, por exemplo, tornou-se proposta mais próxima ao cotidiano). Todas essas alterações iam apresentando-se a cada sábado em nossas aulas, nos relatos, nas expressões corporais, quando o riso e o movimento, antes retraídos e tímidos, tornaram-se mais constantes e soltos no grupo.

O processo de vivenciar e poder construir no vivido articulações e pensamentos possibilitou ampliar cada vez mais e mais a disponibilidade para experimentar, viver uma experiência com o grupo, quando se compreendia que a proposta metodológica era apostar em uma experiência que nos levasse a algum lugar.

Esse curso tem me acordado. Cada sábado eu acordo mais um pouco. Ele tem acordado meus repertórios de olhar, de sentir, de tocar. Eu mesma. Eu tenho sentido isso, um “autoacordar”. Eu lembrando da minha escuta, da minha música, das minhas cores. Lembrando-me de olhar para os lados do meu corpo, para o meio do meu corpo. Como se meu corpo fosse um rio e eu fosse de uma margem a outra. Hoje me vi acordando meus pés. Como ele se movimenta. Da mesma forma que eu venho me acordando tenho acordado as crianças com as quais trabalho. Sentir o chão, observar as cores, as texturas. Isso me tem feito dar um grande salto (Mônica Rosa, professora participante).

O trabalho com as artes marcou bastante minha prática com as crianças. Fiz várias experiências com as crianças, como as pinturas com as garras, a pintura com as esponjas (Greice Duarte, professora participante).

Assim como as crianças que brincam são disponíveis a experimentar e, dessa forma, vão descobrindo o mundo ao redor, se alterando e ampliando suas perspectivas e possibilidades de ação, apostávamos num curso que pudesse aproximar o adulto desse modo de ser criança. Se não categorizássemos as pessoas em fases do desenvolvimento (crianças, adultos e idosos, por exemplo), poderíamos dizer que investíamos em potencializar o que há de mais humano nas pessoas: a experimentação (afetar-se pelo mundo em que vivem) e em expressar seus afetos e ideias de inúmeras formas – dançando, pintando, cantando, desenhando, escrevendo, enfim, criando e compartilhando, pois isso é específico do humano e não somente das crianças, ou de uma fase da vida.

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Referências :

  • DUARTE JR., João Francisco. O sentido dos sentidos: a educação (do) sensível. Curitiba, PR: Criar edições, 2004.
  • KRAMER, Sonia; NUNES, Maria Fernanda; CARVALHO, Maria Cristina. Educação Infantil: formação e responsabilidade. Campinas, SP: Papirus, 2011.
  • LOPONTE, Luciana Gruppelli. Arte e inquietudes estéticas para a educação. In: PASSOS, Mailsa Carla Pinto. Educação como experiência estética. Rio de Janeiro: NAU, 2011 (30-51).

    Contexto de Produção: Texto produzido como registro da disciplina ministrada no Curso de Extensão em Educação Infantil da UNIRIO.

Produtor - contato: cei.unirio@gmail.com

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