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Dossier Formation des instituteurs pour une autre éducation infantile

A criança, o palhaço e o professor: acontecimento e primeiro olhar

, por REIS Flavia

Todos eles traziam sacolas, que pareciam muito pesadas. Amarraram bem seus cavalos e um deles adiantou-se em direção a uma rocha e gritou: “Abre-te, cérebro!
Arnaldo Antunes

Eu sou atriz, sou arte-educadora formada pela UNIRIO e também sou palhaça. Trabalho como atriz na TV, no teatro, com crianças hospitalizadas, e dou aula para profissionais de saúde. Venho há algum tempo trabalhando com profissionais de saúde, pensando em como o treinamento de palhaço pode colaborar na construção da relação entre esses profissionais e seus pacientes. O que me fez chegar a esse lugar, em parte, foi o desafio da formação. Comecei a dar aula para profissionais de saúde porque costumava ouvir das pessoas: “O trabalho de vocês é muito potente, muito forte”. A cumplicidade com a qual a criança interage com o palhaço, muitas vezes, é o que o profissional que trabalha com saúde quer, às vezes não consegue. Isso não é mágica, nós palhaços ensaiamos, treinamos para criar esse tipo de relação nas enfermarias.

Tal experiência me levou a pensar em como os princípios dos treinamentos dos palhaços podem ser compartilhados com o pessoal da área da saúde e com os professores. Princípios que têm a ver com uma qualidade de presença: olhar, escuta, relação com o corpo da criança, relação com o corpo do profissional. Esses princípios seriam trabalhados não com o objetivo de médicos e professores se tornarem palhaços, mas de se apropriarem dessas técnicas como ferramenta, isso porque, conceitualmente, estou falando sobre empatia e cuidado.

Os profissionais da saúde estudam empatia na sua formação, mas isso não tem como ser aprendido senão pela vivência. Nesse sentido, na minha formação de palhaça, trabalho com os princípios da escuta, da percepção, de olhar, da qualidade de presença. Partindo da ideia de que o lugar do palhaço é o lugar do acontecimento, não há uma cena “para” a criança, a gente vai para o hospital e tem o que chamamos de “acontecimento”: o palhaço entra, encontra a criança e, nesse momento, o palhaço acontece. Na troca entre o que o palhaço leva e o que a criança traz, também o palhaço sai modificado. Isso tem muito a ver com o trabalho do médico, da enfermeira, de quem vai encontrar um paciente; e também, eu acredito, tem a ver com o trabalho do professor. Nesse sentido, um médico, a enfermeira e um professor trabalham com a mesma matéria. (Esse termo “acontecimento” fez parte da minha formação com a bailarina Denise Stutz).

No trabalho realizado com as professoras do Curso de Extensão “Educação Infantil: Corpo, Arte, Natureza” da UNIRIO, apostei na ideia de que os conceitos que acompanham os gestos do palhaço – quando ele se deixa acontecer no encontro com a criança – seriam os mesmos que acompanham o professor numa relação com a criança, que vai além do simples ensino-aprendizagem, é uma relação de encontro. Inspirada na obra de Arnaldo Antunes (1992) – especialmente no livro As Coisas, no qual ele escreve poesias sobre a forma da criança entender o mundo, quando elas dão nome às coisas e as coisas têm os nomes que têm –, trabalhei com as professoras do curso na UNIRIO, questionando de que maneira o professor e a criança compartilham uma mesma forma de entender o mundo, de olhar para as coisas. Acreditava que isso poderia colaborar para despertar o potencial criativo do professor: olhar como uma criança. Quando Arnaldo Antunes escreve esse livro de poesia, ele trata desse lugar criativo da palavra e nos coloca no lugar de quem recria o mundo, questionando-nos sobre o que é a linguagem. Daí surgiu a ideia de trazer para os encontros os processos de criação de espetáculos, como palhaça: escutar os sons, ouvir as palavras como se fosse a primeira vez, entender seus significados. Busquei compartilhar com os professores meu lugar de criação, o lugar da experiência sensível, pois acredito que tudo o que passa pela experiência sensível nos torna criativos, pouco óbvios.

Trabalhamos a partir do exercício do olhar, que foi uma das coisas mais difíceis, porque vivenciar e refletir de um jeito mais direto a partir do olhar implica no embate consigo mesmo. Muitas vezes ao olhar o outro a tendência é desviar, fechar os olhos, olhar para o chão, movimentar-se, apertar as mãos, tencionar o corpo..., olhar não é tão simples! Mas a orientação sempre é a de buscar o prazer em se relacionar com o outro, mesmo levando tempo, mesmo sendo difícil, porque olhar para si a partir da relação com o outro é um exercício, não estamos habituados a essa prática.
Olhar para si e se perceber foi uma orientação constante e um diferencial nessa oficina.

Cada palhaço tem uma identidade própria, nenhum palhaço é igual a outro, tem a ver com o que é genuíno, próprio de cada um. E aquilo que se revela a partir da sua relação com o espectador, de sua relação com a criança, é o ponto de partida para a criação da sua cena. Acho que essa perspectiva pode ser pensada na prática do professor: como é que o docente se coloca em relação à criança? E “se fosse possível” partir desse olhar? Se pensarmos dessa maneira, imediatamente nos colocaremos num outro lugar em sala de aula.

Também considero num certo sentido a experiência do ator no palco muito parecida com a do professor: tem um lugar da relação em sala de aula em que eu preciso imprimir um personagem, depois imprimir um outro e depois será outro... Mas tem uma coisa que está no princípio que me movimenta, e isso, a meu ver, faz diferença, e o palhaço e o ator não podem entrar com personagem em cena esquecendo um principio básico: o jeito de estar com o outro, estar no jogo com o outro.
Então, se o palhaço só existe no lugar do acontecimento, na relação, se ele não considerar o outro em seu “jogo, não tem como seguir adiante. Isso a gente fala em tese, mas é um aprendizado que tem que passar pela experiência, que é um lugar concreto e muito revelador. Desta forma, o papel do professor não é diferente: criar a aula a partir da aula junto com os alunos, enquanto ela acontece, é um desafio... O educador é, nesse caso, o cartógrafo, como afirma Rolnik (2006):

[...] o cartógrafo absorve matérias de qualquer procedência, não tem o menor racismo de freqüência, linguagem ou estilo. Tudo o que der língua para os movimentos do desejo, tudo o que servir para cunhar matéria de expressão e criar sentido, para ele é bem-vindo. Todas as entradas são boas, desde que as saídas sejam múltiplas. Por isso o cartógrafo serve-se de fontes as mais variadas, incluindo fontes não só escritas e nem só teóricas. Seus operadores conceituais podem surgir tanto de um filme quanto de uma conversa ou de um tratado de filosofia. O cartógrafo é um verdadeiro antropófago: vive de expropriar, se apropriar, devorar e desovar, transvalorado. Está sempre buscando elementos/alimentos para compor suas cartografias. Este é o critério de suas escolhas: descobrir que matérias de expressão, misturadas a quais outras, que composições de linguagem favorecem a passagem das intensidades que percorrem seu corpo no encontro com os corpos que pretende entender. (p.65)

Na busca de se perceber a partir da relação com o outro, trabalhamos também com toque, um tocando o rosto do outro, experimentando seus contornos. Fizemos vários jogos para aguçar a percepção, para proporcionar uma experiência através da sensibilidade: em dupla, enquanto um tinha os olhos fechados e o outro cantarolava uma música no seu ouvido, como um sussurro, depois a gente pediu à pessoa que cantava para se deslocar na sala, e quem estava de olho fechado tinha que caminhar na busca daquele som. Destaco aqui o momento em que uma professora, ao encontrar a colega que cantava, abraçou-a e falou: “Eu senti que tinha perdido a minha conexão com o mundo!”, outra disse: “Senti que estava ouvindo a minha mãe cantar”, outra: “Ah, ainda bem, te achei!”. Quase todos se abraçaram. A cumplicidade e o vínculo, fundamentais num processo de formação, se criam imediatamente quando trabalhamos a partir de uma experiência mais sensível.

Quando trabalhamos com o olhar para o outro, com a escuta para o outro, quando nos propomos a perceber nosso corpo em relação, quando nomeamos o que sentimos em cada exercício proposto, estamos nos colocando em contato com o que nos afeta, e é este lugar do trabalho do palhaço que compartilho com os educadores e profissionais de saúde. O espaço dos afetos!

Estávamos em sala de aula lidando com os afetos e perceber que isso é possível foi muito bonito, muito forte, muito potente. Eu tenho uma experiência com os médicos, enfermeiros e com professores, e percebo que falamos das mesmas coisas: da dificuldade de olhar o outro, da dificuldade de tocar o corpo do outro, de ser tocado, e isso é muito concreto. Quando não consigo me relacionar, parece que fica uma “caixa preta vazia” e não há mais a oportunidade de criação, de se expandir, de estar junto com o outro. Mas é preciso acreditar que algo novo está para acontecer a partir daquela relação, do que sentimos naquele momento. E isso é outro princípio do trabalho do palhaço: eu não tenho expectativas sobre o que vou construir com o outro, eu tenho uma direção apenas.

Quando eu entro na enfermaria, ou quando estou no palco, eu tenho um espetáculo a cumprir – falo especificamente do trabalho com crianças –, mas a maneira como eles vão responder ao espetáculo é singular. A busca por despertar esse papel no professor foi o mais bacana, para mim, quando pensei o trabalho nos encontros com as educadoras.

Eu estou falando da experiência sensível, isso que eu acho que a gente precisa garantir antes do nosso “treino”: antes de entrar em sala de aula. A partir da minha atuação como palhaça em hospital, queria colocar aqui uma fala de Morgana Masetti. Esta autora tem um papel fundamental em minha formação e em tudo que penso hoje sobre palhaços, hospitais e especialmente, educação. É uma pesquisadora/poeta que escreve sobre a importância do encontro potente e da importância do jogo para o palhaço. No seu livro Soluções de Palhaços ela escreve:

Um palhaço e uma criança se encontram. O cenário que os envolve é pintado de branco e azul. Nele há aparelhos computadorizados e luzes que piscam, ligadas a um incontável número de fios que dão ritmo ao andar das pessoas que ali trabalham. O espaço da cama da criança delimita esse encontro. Envolta pelos lençóis arrumados dentro das grades que a protegem, a criança tem um desafio: viver. Ele está sendo cumprido no ritmo dos aparelhos, na velocidade dos homens e dentro do mistério da vida que habita seu pequeno corpo. O palhaço acredita na força dessa união. Acredita que brincar é a melhor forma de encontro e que este não tem tempo definido para acontecer: depende da intensidade dos olhares e da permissão para o jogo. E aqui o jogo já começou e nele é difícil dizer quem brinca com quem. É tão intenso que brincar, nesse cenário, é sinônimo de viver. (MASETTI, 1998, s.p.)

Eu, educadora e palhaça, acredito na mesma potência em sala de aula, para conduzir o aluno, num jogo “onde não se sabe dizer quem brinca com quem”.

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Referências:

  • MASETTI, Morgana. Soluções de Palhaços: transformações na realidade hospitalar. São Paulo: Palas Athena, 1998.
  • ANTUNES, Arnaldo. As coisas. 8. ed. São Paulo: Ed.Iluminuras, 2002. (Primeira edição: 1992)
  • FUGANTI, Luiz, “Saúde, desejo e pensamento”. In: Saúde Loucura. São Paulo: Hucitec, 1990, vol. 2.
  • ROLNIK, Suely. Cartografia Sentimental: Transformações Contemporâneas do Desejo. São Paulo: Estação Liberdade, 1989.

Contexto de Produção: Texto produzido como registro da disciplina ministrada no Curso de Extensão em Educação Infantil da UNIRIO.

Produtor - contato: cei.unirio@gmail.com

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